Tinha medos quando era pequeno?
Quem não tem? Ainda hoje tenho.
Medo de quê?
De muitas coisas. Tinha medo de ter medo; hoje ainda tenho mais medo de ter medo, além de outros medos. Hoje, por exemplo, continuo a ter um medo que tive desde pequeno, o medo das trovoadas; não gosto nada, afligem-me muito. Havia um pesadelo horrível que tinha muitas vezes: imaginava que saía de casa dos meus pais e atravessava a rua para o lado de lá para ir à escola, na Sertã, e começava a passar um comboio enorme na rua, eterno, que nunca mais parava, e eu não conseguia voltar para casa. Tinha muito medo de não poder voltar a casa.
Como fez para ultrapassar esse medo?
Descobri um truque para quando tinha pesadelos: acordava de noite e escrevia os pesadelos. Ao escrever aquilo ia perdendo o medo porque começava a preocupar-me com as palavras. Queria dizer o que me tinha acontecido, descrever um sentimento qualquer, não me ocorriam as palavras e andava à procura delas. A certa altura o pesadelo já estava mais pequenino e em primeiro plano as palavras. Quando acabava de escrever, apagava a luz, virava-me para o outro lado, adormecia outra vez e o medo já se tinha ido todo embora – ficava no papel.
Excerto da entrevista a Manuel António Pina