Praia das crianças

com uma mão côncava abraça o mar e vira as páginas que chegam à praia

vejo daqui as crianças virguladas que mergulham nelas
ao acolherem nos seus corpos a forma de onda
entornando as palavras salinadas com que escrevo este poema

e com a outra, com a outra mão
dá de beber o leite doce
ao desaguar o seu dorso como uma âncora
esgotando, assim, a sede monstruosa do verso
e as palavras salinadas adocicarem

o rosto de quem lá vive e sempre viveu

vejo daqui, tu não?
é que as crianças já são as ondas que sempre

desejaram nos seus sonhos
e os peixes esperam-nas, felizes, na foz de um rio
que se há-de ainda escrever


Carlos Vaz



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