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"As Vindimas da Noite" de Maria do Sameiro Barroso

apresentação da obra, na Centésima Página, Braga
nesta obra de Maria do Sameiro Barroso, a aproximação da ciência à poesia deve-se, sobretudo, porque o laboratório do cosmos usa os mesmos instrumentos de observação que os do laboratório com que se forja o texto do poema. Assim o poema partilha de elementos da mesma natureza carbónica do cosmos, através do tempo pulsado pela sonoridade e pelo espaço próprio da dilatação textual. Segundo nos descrevem os poemas desta poeta, ou poetisa, se assim o preferirem, a poalha poemática tem a mesma energia cósmica, vem-nos dos quasares que “pulsam” a poeira que forma o tempo sonoro da escrita (“As Constelações de Matéria”, pág.9). Assim, as palavras são como poalhas cósmicas na caótica engrenagem, são o sentido e a ordem quando adquirem o segredo da gravidade que as prende ao poema. Cabe ao poeta, com as suas “mãos” na oficina de escrita, dar-lhes um sentido, uma ordem onde possa gravitar a compreensão.
As mãos que trabalham na oficina de escrita vindimam o sumo telúrico das “estrelas cor de vinho” (Lenta Iridiscência, p.11), nesse vindimar a escrita é invocada para escrever a expansão do próprio universo poético. Depois vem o tempo, a sonoridade do poema, a estrela musical “o tempo evoca vermelhas sonoridades” e o que é a memória se não uma sonoridade do próprio tempo. A ordem do caos é cometida por centros de gravidade das palavras, um universo prenhe de poesia, e a poesia, como se encontra neste livro, é o que chamamos de ordem compreensível, após o tal escoo de “experiências pensadas” que atribui sentido a caoticidade imperceptível e primordial das coisas.
Mas como é que tudo se inicia, qual o princípio desse tempo sonoro, desse espaço do poema que nos ocupa o ofício, segundo Maria do Sameiro Barroso, o processo da manufacturação da escrita tem um começo num apelo anterior à própria poalha poética, ela escreve porque tem de arranjar centros de gravidade capazes de originar a própria vida bucólica, no poema: "escrevo, porque nada mais do que a água é o silêncio que os pássaros me ditam”. E este escrita é uma busca de sonoridades a partir do novelo que se desenrola ao longo do livro. A memória do poema, tal como o do cosmos, faz-se no desenrolar de uma linha que se alonga, dando um rosto e corpo ao tempo que já é aqui a própria linha dos versos que se enchem de memória.
A poesia é sobretudo um instrumento de observação, “tubos musicais”, como a autora lhe chama (Na Voragem dos Nomes, p.19), não do inefável, mas sim do imperceptível, porque o que pensamos ser a ordem do caos, é na verdade a realidade da poesia. De facto, a poesia é como um instrumento de observação para perscrutar as origens vocabulares do cosmos, onde as verdadeiras palavras vivem livres neste silêncio, onde a noite impera, cerúleo e intocável, ainda.
Por mais que a autora procure o princípio criador do cosmos e da palavra que a apela constantemente, o mesmo confunde-se sempre no jogo incerto da memória temporal. Na noite da despossessão, perpetua o micro e o macro do mundo, que coexistem na similitude do poema, por isso, aqui, o poema é a mesura de todas coisas, tal como o cosmos que quando nos estendemos encontramos o colossal, e quando nos encolhemos o átomo. Tudo está dentro dessa incomensurável noite azul, onde existe mais fulgor do que amor, saber onde pôr as mãos e o que colher para o poema é que faz a vindima do sentido. A noite azul é um espaço de espera, que apela o poeta com um manto musical sobre o seu granjeio. As mãos não vindimam uvas, mas outros pedaços sonoros do cosmos que fazem a música do próprio tempo, as palavras como “estrelas cor de vinho”, colhendo-as desse manto na própria sonoridade que lhes cabe no poema, chamamos-lhe, a este granjeio, oficina de escrita.
A poesia não é um espaço de inspiração mas de transpiração, nela os centros nevrálgicos geram centros de gravidade de escrita. E tudo surge nesse colher, na vinha cósmica, onde as palavras aguardam escondidas pelo seu correcto momento de sonoridade (“As Vindimas da Noite”, p.24). Como vimos, a noite quando azul, não é um espaço de vazio, mas um lugar pleno, e é esse o espaço por onde se colhem as palavras que expressam na verdade o sumo do sentido. O espaço da figuração azul é, na verdade, onde a matéria explode, contudo este não é um azul infinito de Apollinaire, mas sim um azul do surgir, do aparecer, a cor da manifestação de sentido poético, o lugar do fulgor onde nos é oferecido a palavra que nos pede para ser colhida (ler poema “Singbarer rest”, p.63).
Assim termino, sem mais dizer… que poderemos dizer da criação se não poesia? Cabe-me apenas sussurrar-vos que “As Vindimas da Noite” é sem dúvida uma boa colheita, confesso-vos, inclusive, que adorei embriagar-me na garrafa poética deste belíssimo livro de Maria do Sameiro Barroso

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