© livro ficticiamente criado para este blog por Carlos Vaz
os audiolivros são a maior aberração dos escaparates das livrarias. Quem gosta de ler, sabe bem que os textos existem para ser lidos e a única audição que a eles se adita é a da voz da leitura que nos sussurra o abismo do texto. Sempre vi os audiolivros como uma excelente criação para invisuais, trabalho com eles e sei o quão isso é importante, mas de repente todos parecem carecer de visão. Meus amigos, há modernices e modernices.
Esta junção fez-me lembrar uma passagem da série Joey: a um dado momento, o actor pega num pacote de leite para beber e numa embalagem de batatas fritas para acompanhar, depois de observar demoradamente as duas pergunta: saboroso ou repugnante? Apesar de conhecido pela sua fraca capacidade intelectual, Joey soube bem que as duas coisas juntas não combinam e por isso desiste de uma delas.
De facto, há coisas que, apesar de saborosas, só existem e têm sentido quando individualizadas na circunstância do seu prazer, pois só aí podemos saborear as particularidades que as distinguem e individualizam na natureza sentida do mundo.
Há momentos para escutar e momentos para ler, por isso vejo os audiolivros como champôs, 2 em 1, vitaminados que só estragam o cabelo, ou como os sumos concentrados com o paladar de cenoura, laranja e pêssego, tudo num só, e que afinal não sabem sequer à daucus carota que alegam conter.
Todo o verdadeiro leitor que gosta, tal como eu, de riscar, sublinhar, apontar, anotar, partilhar, cheirar, tocar um livro, quando olha para este novo objecto da modernidade bacoca pensará: saboroso ou repugnante? A resposta, neste caso, é bem óbvia.
Deixo-vos uma proposta, tão ridícula como possível, sei que na verdade já existem obras da literatura mundial que descrevem os compassos, por exemplo, de um adágio, mas sempre procurando a criatividade daí subjacente e não a leitura de uma voz que não seja a da nossa própria mente... como dizia, trago uma nova proposta, um livro que aqui inventei, chamei-o: ÁUDIO PARA LER. Encostem-se ao sofá e leiam os sons em texto (não em pautas) da Sinfonia n.9 em Ré Menor de Ludwig Van Beethoven.
Mas atenção: este produto traz algumas desvantagens, não o podem ler de olhos fechados como ouviam antigamente

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