a gravura de Goya, recuando até ao avô (capricho 39), que saiu agora do espaço na parede, abriu uma temporada que tenho há muito desejada sobre o conjunto de obras Caprichos, que influenciaram e traçaram o rumo da minha mais recente obra, a sair em Abril, Capricho 43. Como disse então, encontro em Goya o meu próprio capricho, ao atribuir-lhe, neste conjunto de fantásticas gravuras de crítica social um papel que a arte tem vindo a perder. Falo-vos na arte de intervir, de criticar. Na verdade, parte da arte contemporânea é gratuita, sem qualquer papel de educação social. Goya mostra-nos, através das suas gravuras, que os seus caprichos, as suas birras, davam-lhe a liberdade necessária para criticar, intervir, alertar. Hoje, no mundo globalizado, a estética gratuita quase superou a crítica educativa daqueles tempos, digo quase, porque ainda há resistentes caprichosos e birrentos capazes de fazer frente ao desejável e politicamente correcto como: Paula Rego, na pintura, com o seu universo de ostracismo feminino; Sérgio Godinho, na música, com as suas leituras cantadas; Agustina Bessa-Luís, na escrita, através do jogo do riso aloucado que delata as incertezas da sociedade; Maria Gabriela Llansol, no corp’a’screver, retirando o poder para gerar a liberdade da alma; etc.

Mas voltando à gravura de Goya, recuando até ao avô é uma caricatura do fidalgo preguiçoso e arruinado que apenas o é pela linhagem com os seus antepassados. Em Espanha de então (1797), chegaram a ser 500.000 os que recuavam assim, sem tostão, até ao avô. O burro é um monstro, ao tomar a pose de humano, um monstro incapacitado de pensar, por pensar apenas na sua linhagem. Este monstro/burro aparece constantemente ao longo das gravuras de Goya, sempre como "personagem-tipo" da fidalguia de então.
Já agora, se este texto lhe pareceu uma crítica dura à arte, está bem enganado. Na verdade tudo o que aqui escrevi é somente um capricho, uma birra, e nada mais
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