Mai Yushi, O Espírito da Aldeia, de Jorge Carlos

várias são as obras conhecidas em que a história é narrada através de um animal, mas a novidade deste romance está precisamente aqui, no facto do animal ser um felino, mais precisamente uma “onça”. Li a obra numa tarde, não por ser de fácil leitura, que também o é, de facto, mas por me ter agarrado logo nas primeiras páginas, de uma forma tal que só consegui parar no fim. Uma das curiosidades que nos apercebemos é a dificuldade que o leitor encontra na compreensão da linguagem dos humanos, originada pelos dialectos e também pelos constantes erros cometidos pela população analfabeta, por sua vez, a narração da onça chega-nos nítida e bem construída, uma onça sempre faminta que gosta de comer o alimento dos homens, apelidado de “as dádivas do acaso”.
"Mai Yushi", "Maiushin", é o espírito da terra, na língua dos "Kaxinauá", o espírito que origina “um entendimento uno”, por onde mais tarde a conversa fluirá, uma conversa causada pelo efeito alucinogénico de uma bebida chamada “Miração”. Entre a “onça” e o homem “Português”, ambos criados pela mesma tribo da terra, origina-se assim uma simbiose (como o da “pulga” e “Dionísio” de Lázaro Covadlo), mas só que esta é, essencialmente, uma simbiose de linguagem, onde o humano e o não humano se encontram como filhos da mesma terra
um merecido prémio António Paulouro
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