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3 DE MAIO DE 1808

"3 de Maio de 1808"
o célebre quadro "3 de Maio de 1808" de Goya que retrata o fuzilamento do homem de branco, a vítima anónima, na revolta contra as tropas de Napoleão, demarcado pelas mãos e pernas em forma de X e de onde, intencionalmente, sai toda a luz do quadro, vai ser finalmente restaurado. Os danos ainda visíveis e conhecidos causados durante a guerra civil espanhola vão definitivamente desaparecer.

Como sabem tenho um fascínio por Goya, devido aos "Caprichos", e de onde retirei o título da mais recente obra "CAPRICHO 43", mas não foi apenas na minha obra que Goya entrou. Há algum tempo, José Manuel Costa, numa entrevista que dei para a AntenaMinho, disponível para audição na minha página pessoal, falou-me então de um poema sobre, precisamente, estas pinturas, escrito por Jorge de Sena, até então ridiculamente desconhecido por mim:

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

(...)


Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia

- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25/6/1959

Jorge de Sena

Poesia II

Lisboa, Edições 70, 1988


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