O corpo descartável de uma operária

"El Traspacio" de Carlos Carrera
o filme “El Traspacio” possui a mesma estrutura daquilo a que denomino efeito de escada, ou seja, uma história feita por degraus, onde encontramos uma gradação constante na mudança, e importância, do centro das suspeitas e dos reais culpados. Neste filme, de Carlos Carrera, se nos primeiros minutos pode transparecer um filme policial, rapidamente verificamos que os assassinatos sucessivos das mulheres, dilatados logo no início, procuram outra razão e remontam para a denúncia da postura de completa negligência governamental e patronal, também elas imbuídas de uma educação machista face à descartabilidade do corpo da mulher, numa terra pobre e sem lei, bem perto da fronteira do México com os Estados Unidos.
As mulheres jovens, oriundas de situações poucos instruídas e de "espaços sociais mais baixos”, são raptadas e levadas livremente para serem violadas, torturadas e deixadas ao calhas a apodrecer no deserto. Contudo, a uma dada altura, verificamos que as causas das atitudes de desleixo total são bem mais do que um fenómeno local. Durante a investigação, descobrimos que as mulheres vêm de um meio agrícola pobre, para aceitarem qualquer trabalho, e a qualquer preço, em empresas multinacionais.
O fenómeno localizado passa assim a ser uma consequência das empresas emprenhadas de atitudes e manias "globais" que facilmente recorrem à deslocalização, procurando sempre o recurso de riquezas com base na mão de obra barata e que, por esse motivo, abafam a actuação da polícia, ao procurarem evitar transparecer, o escândalo das mulheres mortas, para assim verem salvaguardadas a migração de mão de obra barata.
A história não é ficção, é apresentada como verdadeira, e nela vemos a condição da mulher operária descartável, como um corpo de trabalho para usar e deitar fora, num conluio de interesses mundiais

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